Steiner lembrou que a 500 dias de uma conferência em Copenhague que irá tratar do novo acordo de mudanças climáticas, é imprescindível agir com rapidez para reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

Fonte: Nações Unidas
O número de catástrofes da natureza no primeiro semestre deste ano já soma perdas que ultrapassam US$ 82 bilhões, segundo as Nações Unidas. Para o diretor-executivo do Programa da ONU para o Meio Ambiente, Achim Steiner, desastres causados por fenômenos naturais têm sido mais freqüentes este ano.

Os dois milhões de desalojados, em Louisiana, devido ao furacão Gustav, e o deslocamento de um número semelhante na Índia, por causa das inundações, mostram a crescente vulnerabilidade da humanidade às catástrofes naturais, segundo Steiner.

De acordo com a seguradora alemã Munich Re House, a tendência de um maior número de catástrofes meteorológicas continua para este ano, conforme as previsões de Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima. Os eventos extremos que causaram maiores prejuízos foram o ciclone Nargis em Myanmar, a tempestade Enma na Europa e as inundações de em junho no Mississippi, nos EUA.







Apoio:
Mundo já registra 400 desastres climáticos em 2008, segundo ONU
Aquecimento global: nitrogênio é o novo vilão
Richard Morgan

Enquanto Anne Giblin transportava tubos de 1,20 metro de lama recolhida de um leito de lago ártico de sua jangada inflável para o laboratório, algumas semanas atrás, ela comentou que "a lama é um grande narrador".

Giblin, cientista sênior no Laboratório de Biologia Marinha de Woods Hole, Massachusetts, é parte de uma rede de pesquisa ecológica de longo prazo e trabalha em um posto científico operado pela Universidade do Alasca, em Fairbanks.

A discussão pública da complexa questão das alterações climáticas costuma se reduzir a um único tema: as emissões de carbono, o mercado de direitos de emissão de carbono. Mas outros produtos químicos desempenham grandes papéis na saúde do planeta, e aquele que Giblin vem procurando na lama ártica e que vem atraindo a atenção de grande número de outros cientistas é o nitrogênio.

Além de influenciar as alterações climáticas, o nitrogênio também tem um papel biológico imenso e possivelmente ainda mais importante dada sua presença em fertilizantes.

Peter Vitousek, ecologista da Universidade Stanford que, em 1994, escreveu um ensaio que colocou o nitrogênio no mapa como preocupação ambiental, é co-autor de um estudo publicado algumas semanas atrás pela revista Nature, no qual que concentra suas atenções no ciclo do nitrogênio e alerta quanto a tendência a ignorá-lo e tratar exclusivamente do carbono.

Por exemplo, disse Vitousek em entrevista, "existe grande perigo em fazer algo como, por exemplo, fertilizar em demasia uma plantação de milho a fim de estimular o consumo de biocombustíveis, e nesse caso os benefícios em termos de emissões de carbono são mais que compensados pelos danos que o nitrogênio causa".

Pouco depois da publicação do trabalho de Vitousek, a Geophysical Research Letters caracterizou como "gás desaparecido do efeito-estufa" o trifluoreto de nitrogênio, usado na produção de semicondutores e nas telas de cristal líquido utilizadas por muitos aparelhos eletrônicos. De acordo com o estudo, ele causa mais aquecimento global do que as usinas de energia acionadas a carvão, ainda que não esteja entre os seis gases causadores do efeito-estufa cobertos pelo Protocolo de Quioto.

"O dilema do nitrogênio", afirma Vitousek, "não envolve apenas pensar que o carbono é tudo que importa, mas também pensar que o aquecimento global é a única questão ambiental. A debilitação da biodiversidade, a poluição dos rios - são questões locais que necessitam de atenção local. Chuva ácida. Costas. Florestas. Nitrogênio em toda parte".

O estudo de Vitousek se seguiu a uma análise semelhante publicada em maio na revista Science, em trabalho de James Galloway, professor de ciências ambientais na Universidade da Virgínia e antigo presidente da Iniciativa Internacional do Nitrogênio, um grupo de cientistas que batalha por uso mais inteligente de nitrogênio.

Galloway está desenvolvendo uma calculadora universal para as emissões de nitrogênio. "É o problema da Cachinhos Dourados", ele afirmou em entrevista. "O nitrogênio reativo não é um resíduo descartável. Precisamos desesperadamente dele. Mas nem de menos e nem demais. Muito mais complicado do que o carbono".

Giblin, do laboratório de Woods Hole, passou o verão na estação de campo do Alasca, a meio caminho entre o Círculo Ártico e o Oceano Ártico, pesquisando o conteúdo de nitrogênio no sedimento do leito do lago - não o nitrogênio inerte que responde por 80% do ar que respiramos, mas o nitrogênio reativo a que Galloway se refere. Em formas como ácido nítrico, óxido nítrico, amônia e nitrato, ele desempenha diversos papéis.

O nitrogênio é parte de toda matéria viva. Quando plantas e animais morrem, seu nitrogênio é transferido à terra, e o nitrogênio da terra, por sua vez, nutre as plantas e vaza para corpos aquáticos. Giblin está conduzindo o seu trabalho porque, à medida que o Ártico se aquecer, a camada de gelo permanente da tundra deve se descongelar, e o solo liberará carbono e nitrogênio na atmosfera.
Quando existe nitrogênio demais em um ecossistema, a primeira resposta é um intenso florescimento de vida. Mais peixes, mais plantas, mais tudo.

Mas isso rapidamente se transforma em uma espécie de câncer do nitrogênio. As águas se turvam e enchem de algas de cheiro desagradável que formam zonas de contaminação tóxica. Os cientistas dão ao processo o nome de eutrofização - em termos leigos, ele quer dizer que a água se adultera a ponto de se tornar irreconhecível.

O uso de fertilizante é em larga medida ineficiente. No caso da carne bovina, apenas 6% do nitrogênio usado na criação dos animais termina na carne; o restante vaza para o ar ou a água. No caso da carne suína a eficiência é de 12%, e na de aves é de 25%. Leite, ovos e grãos oferecem os mais elevados índices de eficiência, da ordem de 35%.

Nancy Rabalais, diretora do consórcio marítimo das universidades da Louisiana, diz que "não deveríamos ter tantos Estados e comunidades exagerando no uso de fertilizantes só para conseguir safras recorde a cada ano. Isso é muito prejudicial".

O nitrogênio reativo concorre com outros gases do efeito-estufa pela atenção do público. "Mas é como considerar a malária e a Aids na África", diz Rabalais. "As duas coisas são problemas, e as duas precisam de atenção vigilante".

Os ambientalistas precisam descobrir como enfrentar múltiplos problemas simultaneamente. E alguns se preocupam com a possibilidade de que, depois de tanto esforço para atrair atenção para a questão do carbono, começar a alardear o problema do nitrogênio gere distração.

"Uma das complexidades que complicam a tarefa que decidi empreender é a complexidade em si", diz o antigo vice-presidente Al Gore, que recebeu um Nobel da Paz por seu trabalho ambiental. "Posso começar uma palestra dizendo que existem 14 poluentes que causam aquecimento global, e uma solução diferente para cada um, e isso servia verdade. Mas dessa forma eu começaria a perder a atenção das pessoas".

Tradução: Paulo Migliacci
The New York Times